Visão, digestão e sinapse


Há algum tempo tenho pensado no quanto gosto de escrever. Na verdade, não apenas no quanto gosto de escrever, mas no quanto preciso escrever para conseguir organizar as ideias, fixar os diversos textos que leio para o doutorado e que, vez ou outra, quando retorno a um deles, sequer me recordo do que se trata. Há umas duas semanas essa ideia de criar um blog tem formigado na minha mente e então, como uma meta desse fevereiro de 2026, escrevi na minha agenda: criar um blog para escrever mais. Acho que um dos fatores para essa decisão também foi o cansaço de me sentir consumida por uma telinha OLED de 6,1 polegadas; não é justo eu deixar o meu tempo sair escoando assim pelas minhas mãos e se perder nas telas. Não que eu precise justificar para mim a razão de estar aqui escrevendo, mas sou apegada a contextualizações, defeito antigo de quem é da área de humanas. Resolvi criar esse texto inicial para inaugurar esse espaço de treino autoral. 

Um dos aspectos que mais me alegram no curso de doutorado é que tenho a felicidade de acessar textos densos, porém, extremamente instigantes. Tão interessantes que seria uma lástima eu deixar que a leitura se findasse apenas passando pelo campo visual, sem uma apropriação verdadeira deles. Eu não quero só consumir esse montinho de símbolos fixados em um papel ou em uma tela: eu quero me apropriar dessas informações, dessas pesquisas, dessas histórias. Quero me recordar dos conceitos trabalhados, daquela crítica teórica interessante que o autor faz, daquela alfinetada que dá em determinada abordagem metodológica.

Acho que o mais triste que pode acontecer com um autor é saber que seu texto tem sido apenas objeto do campo visual dos leitores, sem alcançar a digestão e as sinapses necessárias para, no fim, o leitor ser tomado por inteiro pelo escrito. Nesse sentido, sou muito grata a dois professores que ministraram uma disciplina sobre Métodos de Pesquisa (mas que na verdade era Epistemologia), no Programa de Pós-Graduação em que curso o doutorado, pois eles falaram, como um mantra, desde a primeira até a última aula do semestre, o quanto é importante exercitar a autoria. Como bem disse o professor Pedro Demo em uma de suas aulas “lemos um autor para nos tornarmos autores, não porta-vozes”. Não basta apenas citar o que o autor discorreu em seu texto, não basta decorar palavra por palavra determinado conceito, é preciso mais. É preciso desenvolver o pensamento crítico por meio da internalização daquele conhecimento que nos foi exposto, caso contrário, seríamos apenas consumidores, não leitores ou pesquisadores. 

Enquanto pesquisadora, sinto que preciso ler muito e ler rápido, porém, esse processo de leitura mecanizada, que restringe a leitura ao campo da visão, passando no máximo para um “check” no cronograma de leitura, é castradora do conhecimento. Digo isso, porque quando se lê sem ter o tempo necessário para processar o que foi consumido, dificilmente será possível apropriar-se daquele conteúdo. O modelo neoliberal de produção acadêmica tem contribuído de forma importante, por um lado, para o aumento inegável do número de pesquisadores com esgotamento mental e, por outro, para o número de produções com pouco aprofundamento epistemológico-crítico. Essa lógica utilitarista é inimiga do conhecimento, afinal, se um lattes inflado é a medida do bom pesquisador, evidentemente será priorizada a quantidade de publicações em detrimento da sua qualidade teórica. O tempo para digerir o pensamento e as leituras é mínimo. 

Como forma de tentar captar o máximo possível das leituras que faço, busco ler o texto com o arquivo do fichamento aberto, assim, enquanto leio, se percebo um ponto interessante ou um conceito fundamental, imediatamente faço essa transferência para o meu material de estudo, buscando sempre reorganizar em minhas próprias palavras. Se vejo um tópico interessante que me recorda de uma situação cotidiana, de uma notícia ou de outro assunto semelhante, também escrevo destinando espaços para esses comentários, trabalhando um processo dialético entre o autor que estou lendo e a leitura que tenho feito: anoto, rabisco, grifo e questiono. Acredito que essa é uma forma interessante de digerir o texto, uma vez que, ao mesmo tempo em que me atento ao conteúdo do texto, também trabalho essa reconfiguração do tema para a minha linguagem e para a pesquisa que desenvolvo. No entanto, para fazer essa digestão textual, esse processamento cognitivo, mais uma vez, é preciso tempo. 

Porém, a autoria não se traduz na elaboração de fichamentos, essa é uma etapa de estudo que não é necessariamente convertida em um pensamento autoral, mas é um processo fundamental para compreensão de conceitos. A autoria, diversamente, se dá pela escrita proposital, pelos trilhões de sinapses que o cérebro faz para transformar em aprendizado o que foi consumido e não apenas armazenar o conhecimento na nossa caixa organizadora encefálica. Esse espaço que escrevo agora é um local de treino autoral, fortalecendo sinapses e dinamizando essa neuroplasticidade, ainda que seja exercitando uma autoria, por vezes, mais informal e distante dos moldes canônicos valorizados pela academia. Nesse espaço eu espero articular os muitos textos que venho lendo para o doutorado com os textos e temas que gosto, fazendo conexões entre campos distintos, trazendo diálogos de autores diversos e, ao mesmo tempo, assumindo o compromisso de me manter cognitivamente ativa, sem deixar que o conhecimento apenas passe pelo meu campo visual e ali se acabe. 

Barthes, em A Morte do Autor, sustenta que “o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor” e, ao ler esse texto, acredito que ele quis ressaltar que o leitor exerce essa capacidade autoral quando se apropria do texto lido ao ponto de ir além do que o autor trouxe, quando o leitor passa a reinserir aquele compilado de informações dentro de seu contexto pessoal. O texto é um destino para os outros, portanto, esses signos que rascunhamos, revisamos e publicamos só fazem sentido quando se encontram com um terceiro interessado em apropriar-se dele e, assim, fazendo nascer um novo significado. Do mesmo modo que não existe uma teoria imutável, também não há uma interpretação textual única. Espero que os textos que por aqui escrevo possam encontrar outros leitores dispostos a devorá-los, digeri-los, processá-los, adaptá-los, retorce-los, reescrevê-los.


REFERÊNCIAS


BARTHES, Roland. A morte do Autor. Texto publicado em: O Rumor da Língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.


DEMO, Pedro. Autores responsáveis. Crônica, set. 2025, novos aprovados no PPGDH. Disponível em: https://pedrodemo.blogspot.com/2025/09/cronica-111-autores-responsaveis.html

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