Mandato de masculinidade no Relatório IPSOS 2026 - Hierarquias de gênero, Geração Z e Guinada conservadora
Resumo
O ensaio busca analisar a persistência e a atualização das hierarquias de gênero contemporâneas, por meio de uma articulação dos dispositivos teóricos movidos por Rita Segato, Lia Zanotta e Lourdes Bandeira, em cotejo com os dados empíricos publicados no Relatório International Women’s Day, da IPSOS, publicado em março de 2026. A partir do paradoxo apresentado de que, por um lado, há avanços formais no reconhecimento da desigualdade de gênero, por outro, coexiste com a crença de que a busca pela igualdade “já foi longe demais”. O texto sustenta que a violência de gênero não deve ser analisada apenas a nível individual, mas como parte de uma estrutura simbólica que se reproduz de forma ativa por meio do conceito trabalhado por Rita Segato: o mandato de masculinidade. Os dados levantados pelo relatório revelam uma intensificação da reatualização do mandato de masculinidade, sobretudo entre a Geração Z, que exibe atitudes mais conservadoras em relação aos papeis de gênero. Esse fenômeno é analisado como uma crise de reconhecimento que se retroalimenta pelo neoliberalismo, em que o mandato de masculinidade encontra nas redes sociais uma capilaridade relevante para transmissão e atualização de linguagens e de hierarquias, substituindo o discurso da “honra” e da “correção” pelo discruso da “discriminação reversa”.
Palavras-chave: Violência de gênero, mandato de masculinidade, conservadorismo, feminismo.
Introdução
No mês de março de 2026, foi publicado o Relatório International Women 's Day , pela IPSOS International, que traz dados atualizados a respeito das desigualdades de gênero e o avanço conservador, revelando que 60% (sessenta por cento) dos entrevistados em 29 (vinte e nove) países concordam que “as coisas funcionariam melhor com mais mulheres em posições de responsabilidade no governo e nas empresas”, simultaneamente, outros 52% (cinquenta e dois por cento) afirmaram que os esforços em prol da igualdade de gênero "já foram longe o suficiente" em seus países. Em 23 (vinte e três) dos 24 (vinte e quatro) países observados desde o ano de 2019, cresceu a proporção de pessoas que acreditam que a igualdade já foi suficientemente conquistada, além disso, há um aumento do tom moralizante: 21% (vinte e um por cento) dos entrevistados considera que “mulher de verdade” nunca deve iniciar o sexo e, dentre os participantes da pesquisa, as pessoas mais jovens, da Geração Z, foram as que mantiveram posturas mais conservadoras. Com base nesses dados, questiona-se: por qual razão, após décadas de fomento do acervo feminista nos campos téorico, jurídico e institucional, os dados globais do ano de 2026 apontam para um retrocesso na luta pela igualdade de gênero? Como explicar tal fenômeno? Por que alcançamos leis, mas no plano do cotidiano, tais medidas parecem não se converterem em proteção efetiva?
O paradoxo apresentado é, antes de tudo, sintomático de algo que o pensamento feminista já identificou há décadas, mas que a conjuntura atual torna urgente nomear com maior precisão e severidade. As hierarquias de gênero, que imaginava-se estar em vias de superação, ainda que de forma lenta e gradual, não estão em fase de extinção, mas na realidade ancoram-se em uma forte estrutura que se reproduz ativamente, que se atualiza nos discursos, nas instituições e nos corpos, e que encontrou novas formas de se reinstalar. Neste ensaio, busca-se problematizar esse paradoxo articulando, principalmente, três eixos analíticos.
O primeiro encontra-se na estrutura simbólica da hierarquia de gênero, que se sustenta não apenas por leis e pela força física, mas por um conjunto de significados que destina valores desiguais ao feminino e ao masculino, se inscrevendo no que Rita Segato denomina de “mandato de masculinidade”, consistente em um imperativo social que exige do homem a demonstração permanente de domínio e que encontra na violência de gênero um campo propício para tal demonstração. O segundo eixo é o epistemológico, o campo intelectual que é sustentado pelos estudos de gênero, como mostrou Lia Zanotta em sua análise comparativa dos contextos franceses, estadunidenses e brasileiros, e que não são, de modo algum, politicamente neutros, mas que disputam espaço a respeito do que deve ser considerado como violência, o que é cultura e dominação, partindo do processo político de reprodução ou reformulação dessas hierarquias. Por fim, o último plano é o das conjunturas históricas bastante específicas do neoliberalismo, em um momento de backlash conservador, principalmente entre homens jovens, que não pode ser interpretado puramente como manipulação, mas como transformações reais nas relações de poder entre gênero e as formas que o mandato de masculinidade encontra eco quando os sustentáculos tradicionais da vida cotidiana entram em crise, como por exemplo, a sensação de perda de espaço no mercado de trabalho.
Por um lado, a violência de gênero é mais que um crime isoladamente cometido, é um fenômeno misógino cultural, pertencente a uma estrutura que reordena relações entre os gêneros e que preocupantemente vem se remodelando, ganhando contornos bastante específicos em cada geração, sobretudo entre aquelas posteriores às conquistas relevantes legislativas e institucionais oriundas do feminismo. Por outro lado, essa reformulação é alimentada por uma crise de reconhecimento vivenciada por parcela significativa da masculinidade jovem, em um contexto em que as tradicionais perspectivas hierárquicas foram desafiadas. Para compreender esse duplo movimento, o ensaio partirá de um diálogo de perspectivas de Lia Zanotta, Lourdes Bandeira e Rita Segato, com uma análise crítica do Relatório IPSOS 2026, para buscar interpretar globalmente as demandas por igualdade de gênero e que, com respaldo no aporte teórico, confirmam um diagnóstico que o pensamento feminista já havia previsto.
1. Violência como estrutura
Para analisar o fenômeno das atualizações das hierarquias de gênero, mesmo após avanços legislativos e institucionais importantes, é preciso analisar a violência de gênero enquanto um fenômeno culturalmente circunscrito, ponto de partida compartilhado por Rita Segato, Lia Zanotta e Lourdes Bandeira, embora cada uma percorra por caminhos teóricos distintos, aproximam-se ao constatarem que essa modalidade de violência é um aparato constitutivo, por meio do qual a hierarquia entre os gêneros é reafirmada e marcada nos corpos.
O aspecto inicial para este debate parte não da violência física propriamente dita, que culmina em um homícidio ou em uma violência sexual, por exemplo, mas sim da violência moral, que é uma modalidade de violência por vezes velada socialmente, mas extremamente eficaz para a manutenção do sistema de dominação patriarcal. Lourdes Bandeira, ao retomar Rita Segato, define a violência moral como "uma ação que envolve agressão emocional, ainda que não seja consciente e deliberada… que pode ocorrer sem ofensa verbal explícita, por meio de gestos, atitudes ou olhares, uma vez que se inscreve no ambiente costumeiro." Esse tipo de violência ocorre por meio de intimidação, desqualificação das capacidades cognitivas da mulher, ridicularização, coação moral, desvalorização cotidiana. (BANDEIRA, 2014)
Nesse sentido, Rita Segato reconhece que a violência moral é a estrutura basilar que sustenta todos os demais tipos de violência de gênero. Ela é o ponto de partida desse substrato simbólico sem o qual a violência física não faria sentido, uma vez que esse sentido antecede o próprio ato violento, ao transformar a violência física em controle, “correção” e “cuidado”, sempre sob a perspectiva da ameaça enquanto autoridade legítima para promover essa violenta tutela sob a outra pessoa. Essa perspectiva é especialmente comprovada quando Lia Zanotta analisa as falas de agressores, em pesquisa realizada junto às Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher em Brasília, onde encontrou esse mesmo discurso de que "eu tentei corrigir com conversa, não deu certo e eu cheguei a ponto de agredir", "a honra de um homem não pode ser jogada fora", "ela viu que estava errada." Ou seja, a violência física que é confessada pelos agressores surge como restauração da ordem e não como sua ruptura. Ademais, é importante ressaltar que tal noção somente é possível porque a violência moral já foi previamente estabelecida, ou seja, há o terreno simbólico de que a mulher deve ser figura subordinada e o homem deve ser a autoridade de prestígio, que pode “castigar” quando necessário. (MACHADO, 2010)
Nessa dinâmica, torna-se bastante evidente o mandato de masculinidade, conceituado por Rita Segato como sendo a exigência social que pressiona os homens a demonstrarem poder, dominação, ordem de forma continuada para autoafirmação da sua masculinidade. Como consequência do mandato de masculinidade, além das implicações mais indiretas relacionadas às políticas públicas, tem-se a compreensão de que o corpo feminino é um território onde a dominação deve ser inscrita. Assim, para Segato, a violência de gênero ultrapassa a ordem individual de agressão a uma mulher específica, mas encontra um endereçamento coletivo para todas as mulheres, como uma forma de marcar a diferença entre o masculino e o feminino, entre a dominação e a submissão, entre a possibilidade de vida e o direito de infligir a morte. (SEGATO, 2003)
A partir do mandato de masculinidade, a autonomia feminina é percebida como uma ruptura da ordem patriarcal e que enseja reparo, tornando a violência um instrumento de reestabilização do status quo. Um dado que reitera tal perspectiva é o Relatório IPSOS de 2026, que constatou que 27% (vinte e sete por cento) dos entrevistados globalmente consideram que uma das maiores causas de problemas no casamento surge quando a mulher passa a ganhar mais que o marido, e surpreendentemente, dentre os homens da Geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) essa proporção é superior ao dos Millennials (nascidos entre 1980 e 1995) e dos Baby Boomers (nascidos entre 1945 e 1965).
Com base nos dados observados no relatório e na robusta produção epistemológica de Rita Segato e Lia Zanotta, não se deve compreender a violência de gênero enquanto uma categoria individualizante, mas como um fenômeno estrutural, cultural. Buscar solucionar uma questão tão complexa tratando apenas na ordem individualizante é insuficiente para sanar ou prevenir essa espécie de violência que possui um forte enraizamento em questões coletivas. É preciso alcançar a estrutura que reproduz continuamente novos agressores e novas situações de violência, é necessária uma mudança de ordem cultural e não meramente legislativa. Nesse ponto, Rita Segato propõe uma superação a partir de uma dupla via, que deve ser ao mesmo tempo cultural e histórica: o mandato de masculinidade possui uma estrutura geral para explicar a persistência histórica da dominação, porém, possui abertura o suficiente para dar conta de novas variáveis, atribuindo novos pontos de contestação e transformação. (SEGATO, 2003)
2. Os dados do Relatório IPSOS, 2026
Os dados empíricos publicados no Relatório IPSOS do ano de 2026, realizado em 29 (vinte e nove) países entre o período de dezembro de 2025 e janeiro de 2026, onde 23.000 (vinte e três mil) pessoas foram entrevistadas, revela um quadro preocupante que subverte a ideia de progresso linear e exponencial dos direitos das mulheres, convocando o movimento feminista a lidar com uma realidade muito mais desafiadora que os avanços institucionais, políticos e legislativos poderiam lidar, uma vez que expõe uma reorganização do mandato de masculinidade, que passa a operar de forma incisiva a paritr de reconfigurações que interseccionam a juventude e as plataformas digitais.
Iniciarei a análise do relatório a partir de dados mais esperançosos: cerca de 60% (sessenta por cento) dos entrevistados concordam que “as coisas funcionariam melhor se mais mulheres ocupassem posições de responsabilidade no governo e nas empresas”, e ainda 54% (cinquenta e quatro por cento) reconhecem que “as mulheres não alcançarão igualdade a menos que haja mais líderes femininas nos espaços de decisão”. No entanto, embora o relatório apresente, incialmente, alguns dados encorajadores, eles coexistem com outros dados que caminham em posição contrária: 52% (cinquenta e dois por cento) dos entrevistados acreditam que, em relação à conquista de direitos para as mulheres, “as coisas já foram longe o suficiente”, outros 45% (quarenta e cinco por cento) afirmam que “fomos tão longe na promoção da igualdade feminina que estamos discriminando homens” e, ainda, 46% (quarenta e seis por cento) acreditam que os homens “são exigidos a fazer demais em nome da igualdade”.
Em 23 (vinte e três) dos 24 (vinte e quatro) países pesquisados desde o ano de 2019, aumentou o percentual de entrevistados que acreditam que a igualdade “já foi longe o suficiente”, no entanto, tal sensação não acompanha os dados postos na realidade, pois os números de feminicídio, os dados sobre a violência de gênero, a desigualdade salarial e a sub-representação de mulheres na vida política permanecem em um contexto estruturalmente assimétrico. Embora não tenha acontecido uma superação das desigualdades de gênero, aumentou a percepção de que a igualdade já existe ou “já foi longe demais”.
É interessante analisar os dados de forma crítica, fazendo um cotejo com o contexto social em que encontram-se circunscritos, pois quando esses dados são discriminados pelas categorias de geração e de gênero, surge uma dimensão teórica e política ainda mais urgente. É subvertida a ideia de que o progressismo supostamente se encontraria mais presente entre gerações mais jovens, por terem se desenvolvido em um mundo onde já existia o debate sobre gênero tanto na cultura quanto nas próprias redes sociais. Os dados contradizem esse imaginário de progressismo linear entre gerações mais jovens, ao menos quando os dados do relatório são observados a partir de um recorte geracional.
Cerca de 57% (cinquenta e sete por cento) da Geração Z afirma que “fomos tão longe na promoção da igualdade feminina que estamos discriminando os homens”, a porcentagem mais elevada entre todas as faixas etárias masculinas. A respeito da mesma afirmação, 54% (cinquenta e quatro por cento) dos Millennials concordam e, quando o recorte é feito em relação aos Baby Boomers, essa porcentagem cai para 42% (quarenta e dois por cento). Esse mesmo padrão é encontrado, com algumas variações, em diversos outros indicadores que dialogam com atitudes conservadoras a respeito de papeis de gênero observados no relatório. 31% (trinta e um por cento) dos homens da Geração Z acreditam que “uma esposa deve sempre obedecer ao marido”, enquanto apenas 13% (treze por cento) dos Baby Boomers concordam com tal afirmação, ou seja, o número de os homens mais jovens que concordam com essa afirmação explicitamente patriarcal é duas vezes superior que entre os homens de gerações anteriores. O relatório evidencia que os homens mais jovens possuem uma maior aderência às normas de gênero tradicionais. Como interpretar esses dados?
3. Retrocessos e gerações
O primeiro movimento para tentar interpretar os dados do relatório perpassa por uma tentação de ordem psicológica, e até cultural, ao buscar justificar os retrocessos com a ideia de que os homens jovens estão “inseguros”, ou foram “manipulados por influenciadores em redes sociais”, ou ainda “não amadureceram o suficiente”. Tais tentativas podem não ser inteiramente falsas, mas são insuficientes e perigosas, pois desviam a atenção da estrutura patriarcal para o indivíduo singularmente, reproduzindo os equívocos que tanto Rita Segato quanto Lia Zanotta alertaram em suas produções.
Uma perspectiva mais adequada começa por reconhecer que o relatório IPSOS indicou que o otimismo sobre o futuro dos homens jovens caiu em 5 (cinco) pontos em apenas um ano, indo de 45% (quarenta e cinco por cento) para 40% (quarenta por cento), enquanto em relação às mulheres jovens permaneceu estagnado em 55% (cinquenta e cinco por cento). Essa sensação de declínio é o conector que faz com que o mandato de masculinidade seja operado com uma eficácia redobrada. Lia Zanotta observa o "ethos guerreiro" entre jovens infratores, em que a violência e o conservadorismo passam a afirmar uma a "fome de existir, de ser acolhido, reconhecido e valorizado como pessoa singular e ser humano", uma vez os mecanismos tradicionais de reconhecimento masculino estariam instáveis. Assim, o mandato de masculinidade ofereceria uma afirmação da própria masculinidade, uma afirmação identitária. (MACHADO, 2010)
Esse mandato de masculinidade exige que a dominação do corpo feminino seja visível, performada e, sobretudo, reconhecida e validada pelos pares. Em uma realidade em que as hierarquias tradicionais de gênero estão sendo reiteradamente contestadas e subvertidas, o mandato encontrou novas linguagens para a sua manutenção. As redes sociais fornecem um campo propício para o fomento dessas novas linguagens conservadoras, por meio de comunidades de homens que nutrem esse ressentimento em relação ao avanço das mulheres, nomeando conquistas feministas de injustiça. Nesse campo a masculinidade tradicional é celebrada e narrativas de vitimização masculina fornecem ao mandato de masculinidade uma linguagem acessível para esses jovens.
Segundo o relatório, 57% (cinquenta e sete por cento) dos homens da Geração Z afirmam que a busca pela igualdade os discrimina, no entanto, isso não significa que esses homens sofram opressão em virtude do gênero. Os dados demonstram que a violência, a sub-representação política e a desigualdade salarial contradizem esse sentimento. Isso significa, portanto, que o mandato de masculinidade foi ressignificado para transformar a busca pela igualdade em uma ameaça.
Lourdes Bandeira analisou a continuidade da violência de gênero no Brasil e destacou que "a ordem tradicional se ressignifica permanentemente, remodelando os padrões e os valores sexistas, porém, não os elimina.". Assim, os dados do relatório confirmam justamente essa advertência, porém, em uma escala global. A linguagem foi modificada, não fala-se abertamente em “honra masculina”, em “direito de correção”, mas em uma ficcional “discriminação reversa”. Trata-se do mesmo mandato de masculinidade, porém, atuando a partir de novos registros culturais e geracionais, que produzem novas modalidades de legitimação de hierarquia de gênero. (BANDEIRA, 2014)
A interpretação dos dados deve caminhar em conjunto com a teoria que os ilumina, uma vez que os números por si não explicam o fenômeno como um todo, apenas apontam os sintomas de uma estrutura que encontrou na crise de reconhecimento dos homens jovens, sobretudo com o aprofundamento do neoliberalismo, novas capilaridades de transmissão do mandato de masculinidade. É preciso compreender que essa tentativa de compreensão dos dados é uma condição necessária para se buscar políticas institucionais que deixem de ser paliativas e que busquem atuar na estrutura do problema.
Considerações finais
O Relatório IPSOS de 2026 e o aporte teórico mobilizado ao longo do texto convergem para uma conclusão desconfortável, porém, urgente: as conquistas políticas e institucionais do movimento feminista ainda não foram suficientes para alcançar a estrutura patriarcal que produz e reproduz hierarquias de gênero. Foram criados diversos dispositivos legais, como a Lei Maria da Penha, tipificação do crime de Feminicídio, as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, dentre tantas outras conquistas e, ainda assim, 57% (cinquenta e sete por cento) dos homens da Geração Z acreditam que sofrem discriminação reversa e 31% (trinta e um por cento) deles acredita que a esposa deve obedecer ao marido. Há uma estrutura simbólica que se adapta, que muda a linguagem, os signos, a lógica e que encontra nas crises do sistema capitalista um terreno fértil para a reestruturação dos suportes tradicionais da masculinidade.
O mandato de masculinidade, conceito elaborado por Rita Segato, é um mecanismo culturalmente produzido para a manutenção da lógica patriarcal, que é constantemente reestruturada. Desse modo, o backlash conservador notado nos posicionamentos da Geração Z masculina é um sinal não de que o feminismo falhou, mas que ele avançou de forma tão importante que passou a ser visto como uma ameaça ao status quo. O paradoxo que iniciou este texto, de que por um lado mais mulheres precisam estar em cargos de decisão, por outro, que a “igualdade foi longe demais”, demonstra que essa questão extremamente complexa não será solucionada apenas com leis isoladamente, mas somente quando a estrutura patriarcal for suficientemente contestada nos planos simbólico, institucional, pedagógico e político. Infelizmente, enquanto a estrutura não for superada, os relatórios do mês de março continuarão documentando a mesma realidade que Rita Segato, Lia Zanotta e Lourdes Bandeira já apontaram com precisão teórica: um sistema que muda de forma para não mudar a substância continuará encontrando em cada nova geração uma nova linguagem para reproduzir os mesmos padrões antigos.
Conceitos trabalhados
Referências
BANDEIRA, Lourdes Maria. Violência de gênero: a construção de um campo teórico e de investigação. Revista Sociedade e Estado, Brasília, v. 29, n. 2, p. 449-469, maio/ago. 2014.
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
IPSOS. International Women's Day 2026. Paris: Ipsos, mar. 2026. Disponível em: https://www.ipsos.com/sites/default/files/ct/news/documents/2026-03/IWD%202026%20Global%20Charts%20FINAL.pdf. Acesso em: 4 abr. 2026.
MACHADO, Lia Zanotta. Antropologia e feminismo diante da violência. In: MACHADO, Lia Zanotta. Feminismo em movimento. São Paulo: Francis, 2010. cap. 3, p. 1-27.
MACHADO, Lia Zanotta. Estudos de gênero: para além do jogo entre intelectuais e feministas. In: SCHPUN, Mônica (org.). Gênero sem fronteiras. Florianópolis: Editora das Mulheres, 1997. p. 93-139.
MATHIEU, Nicole-Claude. L'arraisonnement des femmes: essais en anthropologie des sexes. Paris: Éditions de l'EHESS, 1985.
SEGATO, Rita Laura. Las estructuras elementales de la violencia: ensayos sobre género entre antropología, psicoanálisis y derechos humanos. Buenos Aires: Prometeo, 2003.
SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.
STRATHERN, Marilyn. The gender of the gift: problems with women and problems with society in Melanesia. Berkeley: University of California Press, 1988.
Como citar este texto
FENELON, Fernanda. Mandato de masculinidade no Relatório IPSOS 2026 - hierarquias de gênero, geração Z e guinada conservadora. Blog Fernanda Fenelon, Brasília, abril, 2026. Disponível em: https://fernandafenelon.blogspot.com/2026/04/mandato-de-masculinidade-no-relatorio.html
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