Política sexual da carne no divã - Um diálogo entre Freud e Carol J. Adams

Esboço dos estudos para a aula de Fundamentos Teóricos dos Direitos Humanos


Resumo

O ensaio pretende esboçar um diálogo a partir da obra Política Sexual da Carne, de Carol J. Adams, e os conceitos da psicanálise freudiana, objetivando encontrar um ponto de convergência consistente na economia libidinal do desejo no contexto da sociedade ocidental patriarcal. Adams elabora o conceito de referente ausente e expõe que o consumo da carne é apagado por meio da supressão coletiva da consciência de que se devora um ser, que um dia esteve vivo. A linguagem carnívora opera como um instrumento de recalque, ao mesmo tempo em que emerge em momento de ruptura. No texto de Adams também encontra-se a negação (Verneinung), a fusão do Eros e do Tânatos e a ambivalência. 

Palavras-chave: Patriarcado, pulsão de morte, vegetarianismo, psicanálise.



Introdução


“Os homens querem uma boa sessão de sexo e um bom bife, não necessariamente nessa ordem”. Essa frase, originalmente publicada no jornal The New York Times, foi apresentada no início de um capítulo do livro “Política Sexual da Carne”, escrito por Carol J. Adams, uma escritora estadunidense, feminista, defensora dos direitos dos animais e militante da teoria feminista vegetariana, onde a partir de uma abordagem interseccional, relaciona as diversas formas de opressões à exploração dos animais. A autora faz um mapeamento dos aspectos políticos e culturais da opressão das mulheres e dos animais, encontrando um entrelaçamento entre essas dinâmicas em um contexto patriarcal de opressão sistemática, articulando, por vezes, critérios como gênero, raça, classe e inova ao trazer a espécie como um componente importante para a análise desse sistema.

O contorno realizado pela autora oferece uma resposta de ordem política  e cultural a respeito do consumo da carne, ao concluir que esse consumo é patriarcal e reafirma o domínio masculino em cada refeição. Traz à tona, ainda, a questão da objetificação e fragmentação, tanto de mulheres quanto de animais. Embora a autora não mencione Freud ao longo de sua obra, é possível tecer um diálogo psicanalítico entre ambos, compreendendo diversos conceitos elaborados por Carol J. Adams que perpassam o referente-ausente, o recalque, o sadismo, a pulsão de morte, a fusão entre Eros e Tânatos e a ambivalência. Assim, este ensaio busca refletir acerca de algumas perguntas que surgiram a partir do cotejo das ideias entre os autores. Enquanto Carol J. Adams elabora uma perspectiva política e cultural, em Freud a resposta é pulsional, pois o prazer oral seria a modalidade mais arcaica e fundante do desejo humano, onde encontram-se inscritos tanto a dominação quanto a possessão.

A partir de um diálogo conceitual retroativo, procedimento pelo qual as categorias de um autor são mobilizadas como lente de leitura e interpretação de outro autor, sem que haja relação direta entre eles. O ensaio não tem a pretensão de corrigir Freud à luz das pautas de gênero contemporâneas, nem reduzir Adams a um caso clínico. O que se busca é identificar onde o aparato conceitual freudiano oferece inteligibilidade estrutural para fenômenos que Adams descreve empiricamente, qual seja, a estabilidade do sistema carnívoro diante da crítica racional, a hostilidade desproporcional contra vegetarianos e a fusão entre prazer e destruição na cultura patriarcal. O ponto de convergência proposto é a economia do desejo, a forma como o prazer é organizado, distribuído e protegido do saber que o perturbaria.


1. Referente ausente e recalque



Ao longo do livro “Política Sexual da Carne”, Carol J. Adams documenta a cultura patriarcal consistente no consumo da carne, descrito por diversas vezes, embora não explicitamente citado, a partir de uma epistemologia freudiana. Isso porque a carne é representada não apenas como uma fonte de energia, um alimento, mas sim como algo “suculento”, “quente”, pingando sangue”, características que envolvem atos de posse, poder, virilidade, prazer. Ao citar Marty Feldman, relembra a frase  "os jogadores de futebol bebem cerveja porque é uma bebida masculina e comem bife porque é uma comida masculina, toda a terminologia da comida à base de carne reflete a preferência masculina". A autora constrói o texto no sentido de que a virilidade encontra-se, em um regime patriarcal, fincado na capacidade de devorar.

Para Carol J. Adams, embora o consumo de carne seja um reflexo da cultura patriarcal, esse consumo é perturbador, assim, a ideia de devorar um animal morto é uma perspectiva que precisa ser reprimida do imaginário social para que possa ser aceito. Esse fenômeno de buscar reprimir da mente a ideia de se consumir um animal morto, renomeando essa prática e fragmentando o ser que um dia foi vivo, é chamado de referente ausente:

“Os animais com nome e corpo tornam-se ausentes como animais para que a carne exista. A vida dos animais precede e possibilita a existência da carne. Se eles estiverem vivos, não poderão ser carne. Assim, o corpo morto substitui o animal vivo. Sem animais não haveria consumo da carne, mas eles estão ausentes do ato de comer carne, por terem sido transformados em comida.” (ADAMS, 2012)


Portanto, a autora compreende que a linguagem opera como fator fundamental para distinguir o animal morto da carne que é consumida, embora ambos sejam os mesmos. Para exemplificar a autora cita que "ao falar em carne em vez de porcos, cordeiros, vacas e bezerros mortos, retalhados, ensanguentados, participamos da linguagem que mascara a realidade". Essa linguagem opera como um instrumento do recalque.

O conceito de recalque foi construído por Freud e que, de forma bastante sintética, representa um mecanismo de defesa, inconsciente e que repele desejos e impulsos inaceitáveis para o inconsciente, de modo a evitar a angústia. Esse conceito é o ponto de partida para Freud, onde ideias, lembranças e desejos que anteriormente foram expostos à consciência, porém, permanecem na inconsciência e, eventualmente, tentam emergir, mas encontram resistência, buscando uma forma de retornar a consciência. É preciso, contudo, uma precisão metodológica, pois o recalque, em Freud, é um mecanismo intrapsíquico, operando no aparelho psíquico individual. A transposição para o plano coletivo não é direta, e o próprio Freud a faz de forma reconhecidamente problemática em Totem e Tabu e em O Mal-Estar na Civilização, obras nas quais estende a lógica pulsional à cultura como formação histórica. Este ensaio adota essa extensão freudiana, a cultura como instância que organiza, canaliza e reprime coletivamente as pulsões, como premissa para articular o referente ausente de Adams ao mecanismo do recalque. O que Adams descreve é, nessa leitura, um recalque socialmente sustentado, pois não opera em um único sujeito, mas é reproduzido por instituições, linguagem e práticas que distribuem e administram a angústia coletivamente.

Para Freud, a troca de nome, o esquecimento e algumas outras falhas inconscientes podem ser consideradas como recalque, pois o recalque nunca é perfeito, ele retorna. Adams elenca alguns exemplos em que o referente ausente acaba vindo à tona na consciência, causando uma perturbação, o que na linguagem freudiana pode ser lido como a angústia com o retorno daquilo que tentou ser reprimido. A título de exemplificação, há dois casos interessantes citados por Adams em que essa perturbação emerge. O primeiro caso é quando relembra histórias de crianças que, não estando completamente socializadas com o sistema de recalque, restauram o referente ausente de modo direto, ao relembrarem que a carne é um animal morto. A autora expõe que "a maioria das crianças assimila um aspecto básico da linguagem patriarcal vivenciando simultaneamente as máscaras da linguagem e a relativização da morte dos animais. Deixar de considerar a carne literalmente acalma o vegetarianismo como um problema". Já o segundo exemplo, voltado para os adultos, a autora cita o caso de um policial que, ao investigar o caso do Jack, o Estripador, viu um padrão existente nos corpos desmembrados das mulheres e dos animais no açougue, passando a não conseguir mais comer carne. Sobre o episódio, Adams relata sobre o que foi narrado pelo policial:

“Depois de examinar uma vítima cujo intestino delgado e uma parte do estômago estava sobre seu ombro direito e outra parte sobre o ombro esquerdo, um jovem policial não conseguiu mais comer carne. “Minha comida me nauseava. Ver um açougue me dava engulhos”. O referente ausente da carne de súbito tornou-se presente, quando os objetos eram mulheres retalhadas” (ADAMS, 2012)


Em Freud outra forma de manifestação do recalque é Verneinung, a negação. Para o autor, quando alguém nega determinado conteúdo, essa negação, de forma paradoxal, acaba revelando o conteúdo recalcado, levando o inconsciente à consciência sem ser reconhecido. A partir da obra de Adams, é perceptível o uso reiterado desse mecanismo no discurso carnívoro, ao expor que “estamos apenas olhando um porco”, “é só um sanduíche”, “estamos apenas comendo no Hooters”. O “apenas” opera como um marcador que ao mesmo tempo em que nega a objetualização em prática, também a enuncia, é a consciência de que algo perturbador está sendo feito, porém, sendo expressado na modalidade de denegação. 

Cabe uma precisão sobre o conceito em A Negação (1925), Freud distingue a Verneinung do recalque simples. Na negação, o conteúdo recalcado chega à consciência, o sujeito o acessa, mas sob condição de ser simultaneamente recusado. Trata-se, portanto, de um momento de abertura do inconsciente que paradoxalmente preserva o recalque, o sujeito sabe, mas saber sob a forma da negação não produz a angústia que o saber pleno produziria. Isso tem uma implicação importante para a análise de Adams, uma vez que o discurso carnívoro que diz “é apenas um sanduíche” não é mera ignorância,  mas sim um saber que se protege de si mesmo. A crítica vegetariana, ao nomear o referente ausente retira a proteção negativa que permitia ao sujeito saber sem saber.



2. Sadismo, pulsão de morte e a fusão entre eros e destruição


Até antes da década de 1920, as pulsões eram pensadas como uma busca de prazer e fuga da dor, porém, com a publicação de Além do Princípio do Prazer, Freud rompe esse paradigma ao trazer uma nova perspectiva. O autor defende que as pulsões ultrapassam a busca pelo prazer e a fuga da dor, trata-se, na verdade, de uma descarga total, de um retorno inorgânico, de dissolução da tensão pela destruição, ou seja, a pulsão de morte (Tânatos) coexiste à pulsão de vida (Eros) e, nessa economia, o sadismo encontra-se como uma fusão entre Eros e Tânatos, entre prazer sexual e destruição. Embora em uma primeira leitura essa perspectiva aparente ter uma carga negativa, Freud destaca que trata-se, em verdade, de uma estrutura universal, o sadismo oral, o prazer de morder, de destruir para incorporar está presente em todas as pessoas, no entanto, o que varia é o destino que a cultura e a história individual dão a essa pulsão, se ela será sublimada, invertida, organizada socialmente.  É essa organização social da pulsão que O Mal-Estar na Civilização tematiza, ao destacar que a cultura não elimina a pulsão, mas a administra, definindo quais objetos são legítimos para o prazer sádico e quais estão protegidos dele.

No trabalho desenvolvido por Adams, a autora documenta ricamente exemplos em que a teoria freudiana não poderia antecipar, com a fusão entre Eros e Tânatos de modo socialmente organizado em torno do consumo da carne e também da violência contra mulheres. No capítulo “Estupro de animais, retalhamento de mulheres”, são diversas as demonstrações dessas pulsões em veículos midiáticos, tais como a revista Hustler que apresenta uma mulher sendo moída como hambúrguer, os filmes snuff em que o clímax sexual é literalmente o assassinato e a evisceração da vítima. A autora analisa que “o que está subentendido nisso é que as mulheres e os animais participam de bom grado do processo que os torna ausentes”, ou seja, a destruição é erotizada. 

A estrutura que sustenta essa lógica é a fusão pulsional entre Eros e Tânatos, com o prazer que se completa com a destruição, mas antes, exige a completa aniquilação daquele ser. Para Adams, essa fusão é socialmente organizada de modo generificado, onde os sujeitos do prazer destruidor são masculinos e os objetos do prazer são femininos, sejam animais ou mulheres. O ponto de encontro entre Freud e Adams, neste aspecto, consiste no papel da carne enquanto um elemento de mediação que culturalmente aceita o prazer sádico, uma vez que o sadismo mediado pelo consumo da carne animal é permitido e celebrado, lido como viril, natural e necessário, nos termos de Adams. 


3.  Ambivalência, angústia e o prazer 


A teoria do desejo, para Freud, é indissociável da ambivalência, uma vez que o objeto de desejo é também o objeto de angústia. Para o autor, o seio que nutre também é aquele que desaparece e inaugura a falta, do mesmo modo, o pai que protege também é aquele cuja autoridade oprime, amor e ódio coexistem no mesmo objeto e a partir deste ponto surge a culpa, o conflito e o sintoma. O autor também destaca que a satisfação nunca é completa, pois a pulsão não tem um objeto adequado, sempre existirá um excedente de desejo que nunca encontrará plena satisfação; essa é a explicação da razão pela qual o desejo retorna, por qual razão o prazer é sempre provisório, objeto de busca constante dos sujeitos.

No plano cultural e emocional, Adams relata essa ambivalência. No segundo, a autora descreve que "todo mundo tem algum constrangimento com o consumo de animais”, ou seja, cada um possui o próprio tabu alimentar peculiar, como por exemplo não comer ratos, não comer cachorros, não comer carne crua, não comer carne sem tempero. Cada sujeito traça, em algum plano, uma linha que não atravessa, linha essa que é culturalmente variável e intrinsecamente arbitrária, razão pelo qual o recalque nunca é perfeito, pois a angústia subjacente ao ato de se alimentar de carne está sempre presente, embora seja constantemente gerenciada. 

Um dos aspectos mais interessantes da obra e que transpassa esse diálogo entre Freud e Adams é quando a autora narra a hostilidade desproporcional com que as pessoas que comem carne reiteradamente demonstram contra pessoas vegetarianas. Adams cita alguns exemplos, como os homens que batem à mesa quando não há carne no jantar, sobre o ataque contra pessoas vegetarianas com uma violência desproporcional. Podemos encontrar a resposta dessa hostilidade em Freud como sendo uma reação ao retorno do recalcado. A pessoa vegetariana, pelo simples fato de existir e optar em não consumir carne, perturba o sistema de recalque que permite o carnívoro comer sem angústia, é reintroduzido o referente ausente, ou seja, a angústia que o recalque mantinha suprimido reaparece e o mecanismo de defesa imediato é atacar a fonte de perturbação. 

No epílogo da obra de Adams, a história de Collette condensa essa estrutura ambivalente no plano individual, pois a narradora observa o frango depenado, mutilado, enxerga  a forma das asas e a pele jovem que cobria as perninhas que naquela mesma manhã corriam alegres", pensa: "Por que não cozinhar também uma criancinha?", mas assim que sente o aroma da carne sendo assada, sente uma enorme fome e conclui “acho que logo vou parar de comer carne, mas não hoje”. É notória a presença da consciência, da angústia, porém, o prazer oral é mais forte, uma vez que o “mas hoje não” é a fórmula do desejo que sabe de sua inadequação, porém, continua desejando. 


Considerações finais


A leitura cruzada entre Freud e Adams pode ser uma ferramenta interessante de aplicação de uma teoria a um objeto, embora particularmente eu tenha guardadas algumas críticas a ambos os autores, tanto pelo excesso de falocentrismo em Freud, quanto pelo uso de analogias que Adams opera de forma, por vezes, problemática. A comparação estrutural entre a violência sofrida por mulheres e por animais, central em A Política Sexual da Carne, foi alvo de crítica consistente, especialmente por autoras negras e do ecofeminismo interseccional, que apontam o risco de a analogia achatar diferenças históricas e materiais entre formas de opressão qualitativamente distintas, além de poder reforçar, involuntariamente, a desumanização de grupos que historicamente foram animalizados como forma de dominação racial. Essas críticas não invalidam o projeto de Adams, mas delimitam seu alcance analítico e seriam objeto de desenvolvimento em um trabalho de maior fôlego. Destacadas algumas críticas que não irei desenvolver, pois demandaria mais que algumas linhas conclusivas, considero relevante o cotejo do aparato conceitual que Freud fornece para o objeto de Adams. 

Freud fornece base teórica para a compreensão da razão pela qual o sistema que Adams critica é tão estável e resistente. A análise política do consumo de carne, ainda que realizada de forma rigorosa, não explica a razão pela qual aqueles que comem carne continuam com o consumo ainda quando se recordam dos argumentos vegetarianos. Freud explica por meio do prazer oral, que é estruturalmente anterior à linguagem e ao argumento, assim, o recalque acaba sendo mais eficaz que a crítica e a pulsão não se transformaria pelo mero saber, mas por um trabalho sobre o desejo, assim, seria necessário ampliar este aspecto às políticas de transformação. 

O consumo de carne é uma prática onde o prazer oral e sexual, o exercício de poder e a manutenção das hierarquias de gênero se encontram, de modo que nenhuma dessas dimensões poderia ser analisada isoladamente, pois a boca que devora o bife, que deseja o corpo saudável, em uma sociedade patriarcal, é a mesma boca que, movida pela pulsão organizada pelo recalque, serve à economia libidinal de dominação, entendida na forma pela qual o desejo é estruturado para coincidir com as hierarquias de poder, tornando o prazer do dominante dependente da objetualização do dominado. Nesse pequeno ponto de convergência, onde o prazer se revela político e a política se apresenta como pulsional, o ensaio encontra o seu local. 


Conceitos trabalhados


CONCEITO

REFERÊNCIA

DEFINIÇÃO

FUNÇÃO ANALÍTICA







Recalque







Freud 

Operação psíquica pela qual representações perturbadoras são expulsas da consciência e mantidas no inconsciente. Não é esquecimento passivo, mas esforço ativo e contínuo que exige energia permanente, o que explica a tendência do recalcado a retornar.

Permite compreender a operação cultural que torna possível comer carne sem perturbação. O referente ausente de Adams é o recalque funcionando no plano coletivo. A manutenção do sistema carnívoro depende de um trabalho contínuo de supressão da percepção do animal morto.








Retorno do recalcado








Freud

O recalcado nunca é suprimido de forma definitiva: retorna à consciência de modo disfarçado, em sintomas, sonhos, atos falhos ou situações em que o sistema de defesa falha. O retorno provoca angústia proporcional ao esforço que custou o recalque.

Explica os momentos documentados por Adams em que o referente ausente irrompe na consciência, crianças que recusam comer ao saber a origem da carne, personagens ficcionais que vomitam diante do bife, o policial que para de comer carne após ver mulheres desmembradas como carcaças.






Negação (Verneinung)






Freud

Mecanismo pelo qual um conteúdo recalcado chega à consciência sob a forma de sua própria negação explícita. Ao dizer "não estou pensando nisso", o sujeito revela precisamente o que nega. A negação é o recalque falando.

Ilumina o discurso carnívoro analisado por Adams: expressões como "estamos apenas olhando para um porco" ou "é apenas um sanduíche" são negações freudianas, enunciam a objetualização ao mesmo tempo em que a recusam. O advérbio "apenas" funciona como marcador sintomático do recalque em colapso.







Pulsão de morte (Tânatos)







Freud

Pulsão que tende à descarga total, à dissolução da tensão, ao retorno ao estado inorgânico. Coexiste e se funde com Eros (pulsão de vida): essa fusão produz o sadismo, onde o prazer sexual passa pela destruição parcial ou total do objeto.

Fundamenta a análise das imagens de retalhamento de mulheres e animais documentadas por Adams, pornografia que une faca e penetração, filmes snuff. Mostra que a fusão entre erotismo e violência não é aberração, mas estrutura pulsional organizada culturalmente de forma generificada.







Fusão pulsional







Freud

Estado em que Eros e Tânatos operam conjuntamente, de modo que o prazer de unir e incorporar se articula ao prazer de destruir. O sadismo é a forma mais visível dessa fusão: o objeto é destruído para ser possuído.

Permite articular, no plano teórico, o que Adams documenta empiricamente: o prazer de comer carne é erótico precisamente por sua associação com morte e sangue. A carne "pingando sangue" é desejável porque a destruição está inscrita na estrutura do prazer, não apesar dela.











Referente ausente











Carol J. Adams

O animal vivo cuja existência e morte são sistematicamente apagadas para que a "carne" possa existir como produto. Essa ausência é produzida por operações linguísticas (renomear vitela, bacon, filé), materiais (desmembramento, embalagem) e sociais (invisibilidade dos matadouros). Sem o referente ausente, o consumo de carne seria perturbador demais para ser sustentado.

Conceito central que articula todo o argumento de Adams. No diálogo com Freud, funciona como a descrição cultural concreta do recalque: é o mecanismo pelo qual o sistema carnívoro mantém a angústia do animal morto fora da consciência coletiva. Sua restauração, nomear o referente, é o primeiro ato da "busca vegetariana".







Objetualização/ fragmentação/ consumo










Carol J. Adams

Ciclo de três operações pelo qual tanto animais quanto mulheres são transformados em objetos disponíveis para uso. Primeiro são objetualizados (tratados como coisas sem subjetividade), depois fragmentados (desmembrados literal ou metaforicamente), e finalmente consumidos (incorporados, aniquilados como sujeitos).

Descreve o processo cultural que Adams analisa e que encontra correspondência na estrutura pulsional freudiana: objetualizar é condição do sadismo (o objeto deve perder sua subjetividade para poder ser destruído); fragmentar corresponde à oralidade sádica; consumir é a incorporação que completa o ciclo do prazer oral.







Política sexual da carne









Carol J. Adams

Conjunto de atitudes e práticas culturais que animalizam mulheres e sexualizam/efeminam animais, operando simultaneamente a objetualização dos dois grupos. É ao mesmo tempo uma estrutura de dominação (quem tem poder come carne) e uma estrutura simbólica (a carne representa e reafirma esse poder).

Conceito-síntese que articula todas as demais análises de Adams. No diálogo com Freud, nomeia a organização cultural e política da economia pulsional: o sistema que distribui generificadamente quem ocupa o lugar do sujeito do prazer (masculino, carnívoro) e quem ocupa o lugar do objeto incorporado (feminino, animal).



Referências

ADAMS, Carol J. A política sexual da carne: a relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. São Paulo: Alaúde, 2012.

FREUD, Sigmund. A negação. Tradução não informada. Disponível em: https://www.efuturo.com.br/materialbibliotecaonine/2765A-Negacao.pdf?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 9 maio 2026.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução não informada. Disponível em: https://cei1011.wordpress.com/wp-content/uploads/2010/04/freud_o_mal_estar_na_civilizacao.pdf?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 9 maio 2026.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Tradução não informada. Disponível em: https://faculdadeplus.edu.br/novosite/wp-content/uploads/2021/06/Al%C3%A9m-do-princ%C3%ADpio-de-prazer-Sigmund-Freud.pdf?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 9 maio 2026.

FREUD, Sigmund. Obras completas: volume 7 (1901–1905). Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. Disponível em: Núcleo de Pesquisas. Acesso em: 9 maio 2026.

PEREIRA, M. E. C. O conceito freudiano de Verneinung e a filosofia. Revista da SPAGESP, Ribeirão Preto, v. 17, n. 2, p. 89-101, 2016.


Como citar este texto


FENELON, Fernanda. Política sexual da carne no divã: um diálogo entre Freud e Carol J. Adams. Blog Fernanda Fenelon, Brasília, maio, 2026. Disponível em: https://fernandafenelon.blogspot.com/2026/05/politica-sexual-da-carne-no-diva-um.html





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